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domingo, 6 de janeiro de 2013


                      SAIU DO BAU

ENTREVISTA COM MAZZAROPI (28/01/1970)
(Armando Salem)

Repórter - Qual o seu público?
MAZZAROPI - Meu público é o Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Eu loto casa em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Acre, Rondônia, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, ilha do Bananal...

Repórter - Sim, mas como você definiria esse público: gente simples, classe baixa, elite, velho, moço?
MAZZAROPI - É público bom, fiel.

Repórter - Você não gosta de falar?
MAZZAROPI - Não.

Repórter-Por quê?
MAZZAROPI - Porque deturpam tudo o que eu falo.

Repórter - Quem deturpa?
MAZZAROPI - A crítica. A imprensa.

Repórter - E como se faz para contar quem é Mazzaropi e o que ele pretende
fazer daqui para a frente?
MAZZAROPI - Conte minha verdadeira história, a história de um cara que
sempre acreditou no cinema nacional e que, mais cedo do que todos pensam, pode construir a indústria do cinema no Brasil. A história de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. Que nunca dependeu do INC - Instituto Nacional do Cinema - para fazer um filme. Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada - crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão, e seus filmes nunca
pretenderam mais do que isso. Enfim, a história de um cara que nunca
deixou a peteca cair.

Repórter - Conte então sua história.
MAZZAROPI - Quando eu comecei minha vida artística, muito pouca gente
que vai ler esta história existia. Nasci em 1912, e na época em que
comecei tinha uns quinze anos. Naquele tempo, o gênero de peças que fazia sucesso no teatro era caipira. E, como todo mundo, eu gostava deassisti-las. Dois atores, em particular, me fascinavam. Genésio e Sebastião de Arruda. Sebastião mais do que Genésio, que era um pouco caricato demais para meu gosto. Nem sei bem por que, de repente, lá tava eu trabalhando no teatro. Mas não como ator - eu pintava cenários. Aliás, eu amava a pintura, sempre amei a pintura. Pois bem, um belo dia perdi o pincel e resolvi seguir a carreira de ator. No início procurei copiar a naturalidade do Sebastião, depois fui para o interior criar meu próprio tipo: caboclo bastante natural (na roupa, no andar, na fala). Um simples caboclo entre os milhões que vivem em todo o interior brasileiro. Saí pro interior um pouco Sebastião, voltei Mazzaropi. Não mudei o nome (embora tivessem cansado de me aconselhar a mudá-lo) por acreditar não haver mal nenhum naquilo que eu já fazer. Os amigos diziam que Mazzaropi não era nome de caipira, que era nome de italiano, mas eu respondia pra eles que, se não era, iria virar. Que eu não tinha vergonha do que ia fazer e, por isso, ia fazer com meu nome. E o público gostou do meu nome, gostou do que eu fiz. Turnês em circos, teatros, recitando monólogos dramáticos,  fazendo a platéia rir, chorar. Mas sempre com uma preocupação: conversar com o público como se fossem um deles. Ganhava 25 mil-réis por apresentação
quando comecei, passei a ganhar bem mais quando montei minha própria
companhia. De nada adiantou a preocupação dos meus pais quando eu sai de casa: quem faz teatro morre de fome em cima do palco. Eu fiz e não morri, pelo contrário, sempre tive sorte - sempre ganhei dinheiro. Mas eu era bom, era o que o público queria. Em 1946 assinava um contrato na Rádio Tupi - onda fiquei oito anos. Em 1950 ia para o Rio de Janeiro inaugurar o Canal 6, e começava minha vida na televisão. Um dia, num bar que havia pegado ao Teatro Brasileiro de Comédia, entrou Abílio Pereira de Almeida. A televisão estava ligada, o programa era o meu. Ele me viu. Uma
semana depois, uma série de testes me aprovava para fazer o meu
primeiro filme: Sai da Frente. Meu primeiro salário no cinema - 15 contos por mês. No segundo já ganhava 30, depois 300, hoje eu produzo meus próprios filmes. E o público, como no meu tempo de circo, vai ver um Mazzaropi que faz rir e chorar. Um Mazzaropi que não muda.

Repórter - Sua história parece girar em torno de cifra. Você é louco por dinheiro?
MAZZAROPI - Não, acho que dinheiro não traz felicidade na vida. Tá certo que ajuda, mas, em compensacão, quem tem, além de viver intranqüilo, passa a ter desconfiança em vários setores da vida. Quem tem dinheiro sempre duvida de quem se aproxima - não sabe se é um amigo ou se vem dar uma bicada.

Repórter - Quanto você ganha?
MAZZAROPI - Mas por que vocês se preocupam tanto com o que ganho?
Vão perguntar pro Pelé, que marcou mil gols. Ele é muito mais rico que
eu. Tudo que tenho em meu nome é a casa onde moro. O resto está em
nome da Pam-Filmes.

Repórter - Tem sócio?
MAZZAROPI - Não, não tenho. Tenho o necessário para pensar em fazer
amanhã ou depois a indústria cinematográfica de que falei. Tenho câmaras
de filmar, holofotes, lâmpadas, cavalos, cenários, agências em São PauloRio, Norte do país, e uma fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba - Taubaté - que serve perfeitamente de estúdio para os filmes que rodo. Como vê, tudo que ganho é aplicado na Pam-Filmes, no cinema brasileiro. E depois vem esses críticos de cinema metidos a intelectuais dizendo: O Mazzaropi tá cheio de dinheiro. Ele tá podre de rico. Não sabe onde pôr o dinheiro. Não são capazes de entender que eu faço cinema como indústria. E o cinema é uma indústria como qualquer outra. Eu faço o cinema-indústria e vou fazer a indústria brasileira de cinema.

Repórter- Acredita mesmo nisso?
MAZZAROPI - Acredito e não estou longe dela. Não uma indústria
exportadora. Não sou visionário. Uma indústria que seja capaz de suprir o mercado interno de filmes é o suficiente. Não podemos pensar em conquistar o mercado externo - nós não temos nem lâmpadas aqui. Tudo que temos vem de lá. Mas, se nós pudermos ter uma indústria produzindo fitas nacionais, se nossas salas ficassem ocupadas por fitas nacionais, quanto dinheiro nós estaríamos evitando de mandar para fora!

Repórter- É um sonho muito bonito. Mas há público no Brasil para fitas nacionais? Ou seria a falência dos exibidores?
MAZZAROPI - Não posso falar pelos outros porque não conheço o resultado dos números daquilo que eles fazem. Tenho muita vaidade em dizer que eu não tenho nenhum problema de exibição de meus filmes. Os exibidores fazem fila na porta da Pam-Filmes. O público vai ver minhas fitas e sai satisfeito. Eu já consegui colocar 13 000 pessoas num dia, nas várias sessões do Art Palácio, em São Paulo. Com isso, ando de cabeça erguida. Agora, pelo outro tipo de filme feito no Brasil, não respondo. Não sei se ele pode ajudar a indústria cinematográfica nacional.

Repórter-Que outro tipo de filme?
MAZZAROPI - Esse tal de Cinema Novo.

Repórter-Você é contra o Cinema Novo?
MAZZAROPI - Não, eu não tenho nada contra ele. Só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.

Repórter-Você parece ter muita raiva dos intelectuais.
MAZZAROPI - É tenho mesmo. É fácil um fulano sentar numa máquina e escrever: Hoje estréia mais um filme de Mazzaropi. Não precisam ir ver, é mais uma bela porcaria. Mas não explicam por quê. Talvez com raiva pelo fato de eu ganhar dinheiro, talvez por acreditarem que faço as fitas só para ganhar dinheiro. Mas não é verdade, porque o maior de todos os juízes fugiria dos cinemas se isso fosse verdade - o público.

Repórter-O que você acredita oferecer para seu público?
MAZZAROPI - Distração em forma de otimismo. Eu represento os
personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um
torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha platéia. Eu documento muito mais a realidade do que construo.Quando eu falo tanto na parte comercial, não quer dizer que é só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público -eu aceitaria
e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que
ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas. Elas continuariam as
mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho
dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira de cinema. E se os críticos se preocupassem menos com o que eu ganho e mais com as salas vazias do Cinema Novo entenderiam que cinema sem dinheiro não adianta. Que não adianta a gente começar pondo o carro adiante dos bois.

Repórter-Quanto rendem seus filmes?
MAZZAROPI - A resposta só pode ser dada pela contabilidade do
escritório da Pam. É lá que eu confiro os balanços. De cabeça só tenho a
cifra da renda total do filme que exibi no ano passado: ;O Paraíso das
Solteironas. Do dia da estréia, 24 de janeiro de 1969, até 19 de janeiro de
1970, o filme rendeu 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros velhos.

Repórter- Quanto custou a produção?
MAZZAROPI - Não me lembro.

Repórter-E a última?
MAZZAROPI - Uma Pistola para Djeca ficou entre 500 e 600 milhões de cruzeiros velhos. É o meu filme mais caro e mais bem cuidado. Colorido especial, guarda-roupa especialmente feito para o filme, que está, realmente, muito bonito. Procuro sempre melhorar a qualidade técnica dos filmes que produzo. É este o algo mais que eu procuro dar ao público. Infelizmente, o que falta no Brasil é gente inteligente, que entenda de cinema. Faltam diretores, roteiristas, cinegrafistas, faltam tudo.

Repórter - Dos papéis que já representou qual o mais importante?
MAZZAROPI - Gostei de todos os filmes que fiz, por isso é difícil dizer qual o papel que mais me realizou.

Repórter-Não teria sido Nadando em Dinheiro?
MAZZAROPI - Quem sabe! Não é verdade, é brincadeira. Gostei do
Candinho, do Motorista, do Corintiano, gostei mesmo de todos. Mas talvez
eu fique com a opinião do presidente da Academia Brasileira de Letras, que, no dia 17 de janeiro de 1968, escrevia e assinava um bilhete dirigido a mim (eu o guardo até hoje num quadro sobre a lareira de minha sala): Astraugésilo de Ataíde considera que, com ;Jeca Tatu e a Freira; Mazzaropi alcançou no cinema o mais alto nível de sua arte. É hoje, sem nenhum favor, um artista de categoria mundial.

Repórter - Você contou ter entrado no teatro através da pintura. Até hoje você pinta?
MAZZAROPI - Não, apenas gosto.

Repórter - Que gênero prefere?
MAZZAROPI - Sou um conservador, prefiro a pintura clássica.
Principalmente dos quadros que têm paisagem, talvez por me fazerem
lembrar o campo, o contato com a natureza.

Repórter- E quanto à leitura?
MAZZAROPI - Só leio Tio Patinhas.

Repórter- Sente saudade do teatro?
MAZZAROPI - Oh, se sinto. Mas de vez em quando da pra matá-la. Faço
alguns shows beneficentes em circos e teatros do interior.

Repórter-Representando coisa séria? Ou vivendo o caipira Mazzaropi?
MAZZAROPI - É muito difícil separar um do outro. Eu já fiz teatro sério:
interpretei Deus lhe Pague e Anastácio, de Juracy Camargo: Era uma Vez
um Vagabundo, do Wanderlei, e várias peças do Oduvaldo Viana. Em todas elas eu sempre fui Mazzaropi. Não interessa se fazia o público rir ou chorar. Ele sempre estava vendo o Mazzaropi, pois eu não posso mudar meu jeito de rir, falar, olhar.

Repórter-Você vai muito ao teatro?
MAZZAROPI - Sim, bastante.
 Repórter-O que pensa do novo teatro, do palavrão, do nu?
MAZZAROPI - Não tenho nada contra ele. Pelo contrário, até gosto das peças que têm nu, palavrão, mas quando eles vêm por necessidade, por decorrência da própria história. Não do palavrão, do nu forçados. De um punhado de gente pelada se esfregando maliciosamente pelas paredes do teatro; do sensacionalismo para ganhar público. No início, eles vão conseguir encher os teatros - é certo. Mas e depois, este público volta? Não, claro que não volta. Nem a minoria que vai ao teatro consegue agüentar ficar vendo gente pelada e ouvindo palavrões o tempo inteiro. Calculem a população de São Paulo e façam uma relação do número de teatros que nós temos e vejam quantos estão cheios. Vejam Quantos lugares têm esses teatros - e verão que a freqüência é mínima. O grande público fica em casa. Aceita Chacrinha, Silvio Santos, Hebe Camargo, vê televisão. Vai ao cinema ver os meus filmes e depois eu passeio pelas ruas e ouço de um pai de família: Mazzaropi, seus filmes são ótimos. A gente pode levar a família para assisti-los. Já imaginaram se eu aparecesse pelado para esse público? Ele nunca mais iria me assistir no cinema.

Repórter-Você falou na aceitação da televisão. Por que não volta a fazer?
MAZZAROPI - Já tenho muito trabalho com a Pam-Filmes. Faço um filme
por ano - mas ele dá um trabalho! Cinco meses de preparação de roteiro, cenários, etc. Dois meses para filmar. O resto é problema de distribuição.
Não dá para fazer mais nada. E não estou mais na idade de ter patrão.
Tenho meu negócio, trabalho a hora que quero. Não dou satisfação a
ninguém. Na TV eu iria ter patrão.
Repórter - Mas você gosta de televisão?
MAZZAROPI - Oh, se gosto. Assisto sempre. Tudo que consegue se comunicar com o público me fascina. Gosto do Silvio Santos e da Hebe,
principalmente. Eles vieram do nada como eu. Ganham dinheiro para divertir o público, e divertem. Não adianta nada a crítica chamar a Hebe de burra. Ela nunca disse pra ninguém que era professora. Não adianta dizer que ela só fala bobagens - o público gosta do que ela fala. E quem manda é o público.

Repórter-Tem planos para o futuro?
MAZZAROPI - Sim, continuar fazendo filmes até morrer - é a única coisa que sei fazer na vida. Quero morrer vendo uma porção de gente rindo em volta de mim.