domingo, 10 de novembro de 2013

O SONHO DE UMA MENINA



        

  Josefa uma mulher nordestina e perseverante, vivia com sua família no agreste de Pernambuco. Ela desafiava os obstáculos que os dias severos lhe aplicavam. Aprendeu com seus pais que a cultura era do ensinamento do homem, mas a verdadeira sabedoria vinha Deus. Nunca viu deserto no agreste, mas sim, rios caudalosos, e pássaros em árvores frondosas invés, de seca e urubus em cima dos cadáveres.   Para sobrevivência usava suas habilidades como recursos. Quando não encontrava as mercadorias tradicionais, as quais ela estava acostumada a vender na feira livre, substituía por animais não domésticos como quati, ou filhote de urubus para estimação das madames ricas da cidade.
   Protegia seus filhos como uma leoa, e nenhum deles lhe acusariam se um dia desviassem do bem. Sempre falava para seus filhos: morrerei se preciso for, e jamais se afastarão de mim.
   As pessoas faziam continências quando Josefa passava. Ela trazia consigo a perseverança e determinação como a marca da vitória.
  Seus filhos mais jovens: Josué, e Ana Maria acompanhavam-na em seus negócios pelas estradas poeirentas do agreste. Ana Maria alegre e jovial fantasiava a realidade dura daquelas estradas íngremes, em belas paisagens. Ela poetizava tanto que não sentia as pedras machucando seus pés, nem seus cabelos cacheados enganchados nas cercas de arame dos curais, quando corria amedrontada por causa dos bois.
   De volta para casa, Josué servia de válvula de escape. Ana Maria deixava as aves fugirem de suas mãos.
  — Josué!... As aves se soltaram vá atrás delas!
       Josué fica zangado e lhe responde:
   — Não vou! Pare de sonhar sua menina boba!
  — Ufa! Essas penas nojentas grudadas nos meus braços! Um dia serei uma dama. Só lembrarei-me dessas penas quando eu vestir roupas com plumas como as damas. Toda essa miséria irá acabar um dia para sempre.
  — Ana Maria venha pegar comigo a galinha. Minha mãe está nos esperando lá adiante. Chega de escrever nesse papel de embrulho! Esqueça desse sonho de ser escritora. Não pode nem comprar um caderno, imagine vestir plumas.
     Josué deixa-a sozinha. Aquela palavra lhe causou muita tristeza e revolta. Ela se agacha no chão chorando promete a si mesma que um dia tornará seus sonhos a vista de todos. Grita!
 — Eu serei uma escritora sim! Muitos lerão meus livros, jamais faltarão cadernos, livros, e comida para nós Josué!
     Josué sentiu a sua falta no caminho e espera-a chegar para pedir desculpas:

  — Desculpe-me Ana Maria, por ter falado rústico com você. Eu também quero ser motorista de avião.
    — Antes do meu grande sonho, me formarei em advocacia requer os bens dos meus pais. Em seguida publicarei meus livros. Não é bonito Josué este meu sonho?
         Todo o dia Ana Maria escrevia em papel de embrulho. Alguns livros usados ela recebia como doação.
     Pela manhã Josefa a via debruçada na mesa sobre os livros.  Achava graça, seu nariz parecia da gata borralheira manchado da fumaça do candeeiro.
 — Ana Maria, desperte já é de manhã. Você exagerou minha filha, passou a noite toda nesta mesa estudando.
— Nossa tive um sonho estranho. Eu estava em Londres na Praça Trafalgar Square. Havia muitos pombos, e eu dava-os vários cereais: milho, arroz, trigo, ervilha. Cercara-me em bando, e  todos os alimentos eram insuficientes para eles.
— Isso é cansaço da sua mente minha filha. Quando se estuda sem professor o esforço é maior. Você tem sede insaciável do saber. Nunca ouvi falar dessa Praça Trafalgar Square
— A senhora não, mas eu sim, porque leio nos livros. Esta praça fica no centro de Londres. Um dia irei até lá, e será primeira viagem.
— Estamos no Sertão do Nordeste Ana Maria! Isso nos parece um conto de fada que não condiz com a realidade. Veja minha filha lá fora, os urubus estão fazendo banquete com os animais mortos, por causa da seca, e muita gente amanhece morta.
 — Isso não pode nos desanimar, mamãe. Eu sei que por de traz dessas nuvens escuras, está a nossa felicidade.
— Ah, filha, as palavras desses livros que você estuda lhe alimentam. Isso me faz muito feliz querida.
Enquanto isso Alberto bebia cada vez mais. Josefa queria reintegrá-lo a família, pedia-lhe que seguisse com ela, e os filhos para outra cidade para conseguir a sobrevivência.
— Por favor, Alberto nos acompanhe. Se ficarmos aqui em São José, morreremos de fome. A situação financeira aqui não se reverte. Com a seca as mercadorias que eu negocio estão escassas. Seu vício também está contrariando nossos filhos.
—Amo meus filhos e você. Mas, sinto-me envergonhado sair desta terra sem vitória. Agora nossos bens estão nas mãos dos impostores que eu tanto confiei.
— Perdemos nossos bens, mas não perdemos a reputação. Estamos com a melhor parte da nossa vida, que são nossos filhos.
Alberto desiste de seguir a família. Josefa e seus filhos vão para uma cidade vizinha.
       Ana Maria não tem escolha, e detesta ser nômade. Ora no lugar, ora em outro. Estudar parece cada dia mais longe da realidade.
   — Mamãe eu não gostaria de deixar meu pai sozinho neste lugar. Eu o vi tão triste que não tive coragem de me despedir dele.
   — Convidei-o, mas não aceitou vir conosco. Agora a minha preocupação é arranjar o aluguel da casa que vamos morar.
          Ana Maria se esforça para não desgostar sua mãe. Por dentro existe um grande vazio.
           Sua amiga Carla naquele momento chega para lhe convidar para a festa de aniversario do seu irmão.   
 — Olá Ana Maria. Quanto tempo que não a vejo. Venho lhe buscar para comemorarmos lá em casa, o aniversário do meu irmão Chiquinho.
 — Desculpe-me Carla, não posso ir. Estamos de mudança. Nós iremos morar em São Cristóvão. Estamos arrumando as poucas coisas que possuímos.
— Irei sentir muito a sua falta.
— Eu tenho sede de estudar. Não posso ficar mais aqui. Quando me formar em advocacia eu voltarei para requerer os bens que meus pais.  Adeus Carla eu sempre me lembrarei de você.