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domingo, 23 de outubro de 2016

Ótima tarde! Visitante deste Blog. 
Proporcionarei  do meu livro de romance: algumas páginas para você do Capítulo I, até o II. Este livro, foi publicado com pouco exemplares, e nem todos tiveram acesso. Por conta disso breve irei reeditá-lo.

           CAPÍTULO I

As folhas secas se espalham pela rajada do primeiro vento de outono. Depois de algum tempo, o clima fica tranquilo predominando um forte calor, enquanto o sol poente se esconde por detrás das serras sob a região de Vargem Doce.
O pica-pau, um pássaro hiperativo faz barulho importunando o sono das vizinhanças e dos companheiros. Enquanto isso, ali no habitat, existe um casal mais tranquilo e trabalhador: João de Barro e sua companheira que saem de manhã à procura de alimentos. Carregam incansavelmente argila e esterco, para construir sua casa.
Alguns metros dali; estão os adolescentes observando cada habilidade admiráveis dos pássaros. Seus olhares de inveja cercam-nos por serem independentes e livres de regras, ditadas pelos homens.
Violetta e seu irmão Acary estão fazendo trabalho de ciência no Parque Ecológico, a pedido dos professores. Eles estão interessados nos nomes das plantas e animais. Acary está entusiasmado para saber quem foi o botânico, e médico sueco, o criador da nomenclatura binominal da classificação científica. Ele comenta:

—Está escrito nesta placa que foi Carlos Lineu que criou a nomenclatura. Deu nomes aos seres vivos, que os biólogos do mundo inteiro usam.
Violetta replica:
— Esse botânico foi personagem muito importante para a Biologia. Estudar ciência é descobrir o segredo da complexidade da vida dos seres.

Acary e Violetta moram na fazenda Bureau com seus pais. Não percebem que já é tarde. Nesse ínterim Acary fala de uma paixão impossível que sente pela filha do dono da fazenda. Sua atitude despojada surpreende Violetta. Ele não faz segredo quando se refere à Paloma, o seu primeiro amor.


— Sinto meu coração despedaçado. Ontem enviei um presente de aniversário a Paloma, mas foi recusado. Ela é rebelde, mas tão singela como as pétalas das rosas.
Violetta o ouve em constrangimento. Naquele momento seria inadmissível se calar, diante da semidiotice do seu irmão.
— Está desajuizado Acary! Não ponha essa criatura indesejável em sua vida. Paloma sempre causa encrenca com todos os funcionários da fazenda, e coloca os rapazes aos seus pés. É a sensação do ridículo. Custa-me crer que você sente amor por ela.

Naquela discussão, a ira de Violetta sufocou-a. Ela reconheceu que foi muito dura, ao se intrometer em assuntos pessoais, do seu irmão. Acary virou as costas e fez cara de desentendido.
— Acary perdoe-me, por eu ter agido assim. Não gostaria que você fosse um objeto de brinquedo para Paloma, que tanto lhe faz sofrer.
Acary com expressão mais tranquila retorna ao assunto.
—Confesso-lhe que me deu calafrio pelo seu comentário. Mas prometo controlar os meus sentimentos quanto a Paloma.
Rebeca é uma adolescente de cabelos longos, e pele morena queimada pelo sol do campo. Tem olhos cor de mel, mas transmite  a tristeza na alma. Foi criada sob o domínio de Camilo Borges e sua esposa Berlinda que são proprietários da fazenda Bureau. Rebeca é tratada como um cão selvagem por eles. Porém os empregados que presenciam todas as cenas covardes, neles não havia  nenhum direito  de defendê-la, porque Camilo Borges decerto os mataria.
A negra Stergia é descendente de escravos, e desde jovem vive na fazenda Bureau. Depois que seus pais morreram Stergia se tornou a cozinheira da mansão. Ela ama Rebeca como filha, e nada poderia intimidar de defendê-la.  Argumenta:
— Camilo Borges, todos aqui no casarão tem conhecimento do maltrato que Rebeca recebe do senhor. Isso não é justo estou farta  e contrariada dessa situação.
Camilo Borges não  desconsidera o que Stergia comenta.
— Mas quem lhe dar o direito de ser atrevida assim?
— Há  tempo  tenho algumas coisas prestes a saírem; da minha boca contra o senhor!
— Volte à cozinha! É lá, que é seu lugar. Seus pais nunca tiveram o atrevimento de ultrapassar os cômodos desse casarão. Eles eram também serviçais como você!
A negra Stergia sai a resmungar, esfregando as mãos com ira, no avental bordado escrito: “bom apetite” manchado  com molho de tomate.
— Camilo Borges, você é dissimulado. Todos ainda saberão  quem é você.

São meados de junho. Rebeca aproveita a distração de Berlinda, e sai de ponta de pé atravessando a porta da cozinha com sutileza para que os criados não a vissem passar. Finalmente, ela chega ao jardim e toma o percurso do colégio. A sede insaciável de aprender a ler, não lhe põe barreiras sobre o castigo que poderia receber quando chegasse a casa.
   Rebeca entra no pátio do colégio, e seus olhos luziam de felicidades. Ficou quase inerte em uma janela ouvindo  a professora ensinar  para os alunos. ”Os girinos têm caudas musculosas, e se parecem com peixes. Eles são filhotes de rãs, e passam por uma fase de transformação, e se tornam  sapos grandes”.
Os alunos percebem a presença de Rebeca ao lado da janela, e riem da sua curiosidade.  A professora se surpreende pelo interesse dela pelas aulas.
— Olá, pode entrar para assistir as  nossas aulas. Parece-me  que tem interesse em estudar.
Com a voz reprimida, o som sai entrecortado. Rebeca comenta:
— Não eu posso ficar ouvindo. Apenas estava passando por aqui, e me encantei quando a ouvi falar da natureza dos repteis.
— A aula de ciência faz todos refletirem sobre o esplendor da glória de  Deus que é  maior do que esse Universo. Você é uma garota admirável, observadora e inteligente.
Rebeca preferiu não falar. Mas pensa: “por que  não poderia estudar com os outros adolescentes como eu”? Titubeia quando se desculpa. Replica:
— Obrigada professora. O sonho de estudar anda eternamente  comigo. Queria está no meio desses alunos, aprendendo as coisas interessantes, pois certamente  eu seria uma garota  muito feliz.
A professora logo deduziu que existia algo errado além daquele rosto de aparência  ingênua de Rebeca. Retruca:
— Posso ajudá-la no que for preciso. O que a impede de estudar?
Rebeca faz um silêncio  no mais profundo da alma.Despede-se e faz o mesmo percurso de volta para o casarão, o lugar que  só existe desprezo e tristeza, para ela.

Enquanto isso, na fazenda, Júlio não obedece à vontade de Camilo Borges. Ele leva seus filhos: Violetta e Acary, todas as manhãs numa carroça desconjuntada para o colégio. Passam por atoleiros de lama e curral de bois, para consegui  os  objetivos  para o futuro dos seus filhos.Para Violetta, pouco há importância se ela chega com seu uniforme  salpicado de esterco e massapé. A meia ao longo da perna vira uma bota de sete léguas, pretinha como as asas de anum. Os colegas não contem o riso. Eles gritam:

— O uniforme de Violetta está respingado de lama! Ela deve ter caído no atoleiro quando passou no curral.
Violetta não se esconde atrás das carteiras, agora quer revanche com os colegas de classe. Argumenta:

— Não me importa a provocação de vocês. Existe um sonho em mim, além do azedume das suas palavras idiotas.

Momentos depois, o sinal toca, dando início às aulas. Quando a professora entra na sala, eles estão em algazarra. Ela não se agrada, e exempla-os com uma lição de classe para responder.
— Todos irão dizer dez vezes a tabuada, até quinhentos. Não poderão sair para o recreio, enquanto não responderem.
Alguns alunos se lamentam do terrível castigo. Entre a turma existe um garoto chamado Juca. Ele é ousado e petulante, com ar de quem sabe de todas as matérias. Arranja uma forma de ludibriar a professora.
— Professora, tire-me do meio dos colegas! Eu conheço a tabuada bem, e não há motivos para repeti-la.
— Não Juca, a lição é para todos. Alegro-me ter um aluno como você.
A professora acredita em Juca, e o chama a frente. Ela argumenta:
— Ótimo! Você será o exemplo desta classe. Atenção, alunos façam, silêncio, por favor! Juca irá contar de dez a quinhentos. É um aluno prendado e todos deveriam segui-lo.
 A turma coça impacientemente a cabeça em protesto. Anda de um lado para outro, não entende porque Juca  decorou tão rápido a tabuada, porque ele  não sabia nem contar um mais um. Todos os colegas ficam na expectativa para ouvi-lo.
Juca se gaba diante deles.
— Sou autodidata. Nasci já inteligente.
A classe se enerva com o comentário dele, e começa a gritar:
—Não nos iluda diga logo a tabuada seu bobo!
Juca com caráter impulsivo arranja um jeito de sair ganhando diante dos colegas.
— Uma vez dez, é igual a dez. Dez vezes dez, é igual a cem. Dez vezes cinquenta, é igual a quinhentos. Vejam como sou ágil.

A professora fica perplexa com atitude espertalhona de Juca. Comenta:
— Você ludibriou-me, na contagem dos números. Embora não esteja errado. Todavia ficará de castigo, porque interpretou o trabalho de classe em brincadeira. O que dirá agora, aos seus colegas, que estão esperando você cumprir o que havia dito?

Juca desconcertado pede desculpas aos colegas, ainda com ar de arrogância, mas fica evidente que não foi aceito.
Todos se entregaram ao riso, porque Juca tinha levado uma bronca da professora. A turma não o olha mais com bons olhos.
— Desculpe-me professora. Peço também perdão aos colegas. Porém, eu não estava errado, apenas economizei o meu  tempo.

  CAPÍTULO II

 Enquanto na fazenda Bureau Júlio o antigo caseiro, não concorda com  as ideias do patrão. Defende com ímpeto os direitos dos seus filhos, e também dos camponeses. Camilo Borges alega que a sabedoria vem do cultivo da terra, e não dos livros.  Júlio argumenta:
—Durante todos os anos que trabalhei nestas terras, fui subalterno. Mas agora é impossível compreende-lo pela sua falta de humanidade.
Camilo Borges com arrogância replica:
—Não esqueça que eu sou dono dessas terras, e as decisões começam por mim.
— Posso-lhe afirmar que o senhor tem péssima reputação, pelo fato de impedir esses adolescentes de aprender a ler, e escrever. Ainda tem coragem de alegar que eles não terão nenhum benefício? Prometo a mim mesmo, que os meus filhos, o senhor não impedirá de estudar em Monte Verde.
Camilo Borges está irredutível. Sentado numa espreguiçadeira com ar pretensioso de quem não respeita opinião de subalternos. As palavras de Júlio não lhe trazem constrangimento. Ele responde:

—Júlio onde está com a cabeça? Não reconhece que a produção da fazenda diminuirá por causa dessa ideia maluca? Afinal, é sua família que irá perder com isso!
Júlio tem estatura pequena e franzina, mas quando é preciso enfrentar um problema, ele não pensa o que poderia lhe ocorrer. Daí então, ele ultrapassa os limites de um funcionário submisso contrariando as ideias bizarras de Camilo Borges. Júlio retruca:

—Não recebo ordens suas, que contrarie os estudos dos meus filhos! Suas razões foram sempre egoístas, mas não surtirão efeitos sobre mim. Venda os produtos da sua terra, mas não venda os direitos dos meus filhos! 

     Júlio com esforço vence o durão Camilo Borges, demonstra mais uma vez, que nem sempre lhe obedece em tudo. Finalmente, Violetta fora estudar em Monte Verde, na casa de sua tia Ester durante quatro anos.


Ao pôr do sol, a tarde ficava tranquila. Violetta recordava com saudades dos seus pais, e a casa simples onde se criou. Relia várias vezes as cartas que seus pais lhe enviavam.
  Ester, a tia de Violetta planejava ter filhos. Mas ficou viúva antes de ser mãe. Ela detestava a solidão, por isso, ocupava o tempo em obras sociais em países ermos, onde a miséria fez vítimas da fome. Violetta era como uma filha para ela, por isso, tentou convencê-la a ficar em sua companhia. Ester comenta:


— Sei que está com saudade dos seus pais. Compreendo que cada dia lhe parece um mês. Porém, não gostaria que partisse desta casa. A solidão para mim é o fim de uma vida saudável e feliz.
Violetta argumenta:
— Tia, você tem razão. Meus pensamentos às vezes estão aqui, outras, lá. Ando com saudades dos meus pais, também dos meus amigos, principalmente Rebeca.
— Percebo que você tem uma compaixão grande por essa jovem que se chama Rebeca. Posso saber por quê?

— Ela é como se fosse minha irmã. Vive na fazenda sob a autoridade de pessoas perversas, que não são seus  pais. A verdade é que o destino omite algum segredo de sua vida. Camilo Borges e sua esposa têm-lhe tanto ódio, e ninguém sabe por quê. Rebeca  levanta-se cedinho para os afazeres da mansão e sai para colher no campo. Além disso, é tratada com desprezo e castigada por coisas insignificantes.

Ester ficou pasmada, com os olhos cheios de lágrimas quando ouviu Violetta contar sob Rebeca.
— Estou comovida.  É muito triste a história dessa pobre menina. Podemos ajudá-la.
— Não temos como fazer isso. Os patrões são maus, tem poder sob Rebeca e com todos os funcionários da fazenda. Menos com meu pai que o enfrenta.
— Então tente me avisar o que se passa nesse casarão. Podemos juntas salvar esta garota. Isso é contra os Direitos Humanitários.
— Meus pais já tentaram defendê-la por muitas vezes. Mas o patrão busca todas as leis, que a impede de ser livre. Rebeca obedece em tudo, convencida  que  o  destrato  deles seria  uma  educação que eles lhe impõem. No entanto, os Borges não têm nada de sentimentos paternal.
No casarão havia grande movimento. Camilo Borges recepcionava seus amigos para comemorarem o aniversario de sua esposa Berlinda sob a luz de velas e músicas. Muitas comidas apetitosas: Peru assado, leitão recheado e finos vinhos que aceleravam cada vez mais os apetites dos convivas.Na primeira sala  da entrada do casarão,  Rebeca servia os petiscos, e os vinhos. De  vez em quando ela ficava  espairecida com as damas que vinham com roupas glamorosas, mas percebia que não havia nelas nenhuma felicidade. Berlinda  ao avistar sua distração retrucou-a:
— Retire-se daqui! Já chega desse seu entusiasmo. Irei chamar outra serviçal, pois  esquece pelo um momento que  nesta casa  você  cumpre  só os  afazeres.Não fique  entre nós, já lhe avisei várias vezes!
   Rebeca sente-se excluída de todos. Mas antes de sair algo afeta seus sentimentos. Replica:
 —Não sou uma intrusa. Por que não me trata ao menos com um pouco de dignidade?
  — Rebeca, você persiste com insipiência nesse assunto?Entenda que filha de rainha tem autoridade de princesa. Paloma é minha filha, mas você não é!


Rebeca nada diz. Vira as costas, e sai cabisbaixo. Ela entra no seu quarto, não contem o choro. Desesperançada não acreditava que existisse alguém no mundo que pudesse lhe dar valor. A não ser os animais domésticos onde divide seu quarto com eles. Desabafa com a gatinha chamada Dalfnee.
— Sabe Dalfnee, alguns seres humanos são muito complicados. Eles maltratam humilham, tudo em prol do seu orgulho e riqueza. São pessoas que não têm amor, porque esse sentimento não é para todos. Só para aquelas pessoas especiais. Mas você é feliz, pula, brinca, e ainda recebe os meus cafunés. Então não pode reclamar, não é mesmo?
     Dalfnee parece que lhe compreende, caricia com seu focinho malhado de preto e branco, o rosto de Rebeca.
  

      São 05h00 horas da manhã, Rebeca já está acordada para ir a várzea colher legumes. Embora o caminho fosse deserto, possuía agradável paisagem com arbustos e árvores de portes, com flores diversificadas. Nesse percurso ela admira os animais pairando para vê-los. As preguiças de cabeças para baixo nos pés de imbaúbas, e os saguis peraltas pulam nos galhos, brincando como crianças amigas. Ela pensa: ”São tão belos, seus gestos expressam alegria. Gostaria de ser como eles. Poderia me considerar repleta de felicidade”.
      Horas depois, Lírio Venâncio um jovem  de péssimo caráter que mora na fazenda vizinha, insulta Rebeca e  coloca armadilha no caminho onde  ela passa.Ele entrelaça no percurso vários cipós. Despercebida, ela tropeça e derruba a jarra de água. Ela pensa: ”Devo estar sem coordenação. É a terceira vez que eu quebro uma jarra. O que vou dizer ao senhor Camilo Borges?”.
      Não percebe que o déspota Lírio Venâncio está escondido  a zombar dela com  gargalhadas.
      Adriel, um jovem de classe alta, veio passar as férias na fazenda dos seus pais, que ficava vizinha da fazenda dos Venâncio. Ele contestava a maneira frívola e desumana, de Lírio Venâncio. Adriel retrucou:
   
— Lírio você é um canalha!  Não merece vê a luz do sol. Por que faz  essa maldade com Rebeca?
   Entre os lábios ele responde:
— Gosto de aborrecê-la. Rebeca é uma desmiolada muito selvagem.  Ela parece com Maria Madalena arrependida. Dizem que seu patrão ainda lhe bate.
— Não achei nada engraçado e nem interessante! Se o patrão dela maltrata-a isso é contra lei. Não é mais época de escravidão. Você é injusto e maldoso como ele.
Lírio não se importa com as palavras de Adriel.
­— As brincadeiras são divertidas. Não se intrometa!Ela tem medo de mim. Todas às vezes que a vejo passar, ela cai nas minhas armadilhas.
—Você vale menos do que molusco, e um verme! Não mexa mais com ela, senão vou lhe desconhecer. Não tente!
—Solte-me, não tente me impedir. Não gosto do jeito agreste dela.
A voz arrastada e cínica de Lírio altera toda amizade entre eles. Adriel responde com fúria esbofeteia e empurra-o numa ribanceira, sufocando a garganta de Lírio.
— Nunca mais me desafie! Não faça armadilhas mais contra Rebeca, quando ela estiver passando neste caminho,  não se atreva  faze-lhe maldade! Se porventura eu souber, deixar-lhe-ei uma marca, como a ferradura de cavalo. Ainda comparo-o com elogios por que você é bem pior. Já não basta a punição daquele malvado Camilo Borges faz contra ela?
Lírio já vencido por Adriel permanece no chão. Argumenta:

—Vejo que você não serve para ser meu amigo. É muito bobão, com cara de bom samaritano.
Adriel não lhe dá trégua, despreza sua amizade, mas antes lhe diz outros desaforos.
— É um prazer não fazer parte da sua amizade, não gosto das suas atitudes desumanas. Meus pais me ensinaram a amar as pessoas como nossos próprios irmãos. Sinto-me envergonhado por ter sido um dia seu amigo. Decerto eu não conhecia seu nível de crueldade.
Lírio levanta-se do chão, se retorcendo de dor e  tenta se explicar.
— Hei Adriel, não precisa ser tão radical. Sei que você é um garoto diferente de mim, mas eu gosto de brincar dessa maneira com Rebeca.
— Aviso-lhe, não tente novamente provocar Rebeca. Senão irá se arrepender.

Enquanto isso, Rebeca permanece ali, transtornada sentada numa pedra para refletir o que diria para Camilo Borges quando chegasse a casa. Dizia consigo: “se tivesse quebrado somente um vaso, talvez ele me perdoasse, mas quebrei muitas vezes”.


Algumas horas depois. Rebeca chega ao casarão entra pela porta dos fundos, para fugir da presença de Camilo Borges. No entretempo, depara-se com o tirano. Sem modéstia e pudor ele grita:
— Posso saber por que demorou tanto, para trazer a água?
Não dar tempo responder. Enquanto Rebeca  procura se expressar Camilo Borges agride com ofensas.
— Rebeca! Rebeca! Sua desmiolada, eu estou falando com você!
Sem nenhuma palavra, ela parecia uma ovelha agonizante. Escondia-se atrás dos móveis para se livrar de sua fúria. Mas, o excêntrico Camilo Borges é mais rápido do que uma víbora venenosa. Destemido e sem lei, obrigou-a a falar.
— Louca! O que estava fazendo?Você será castigada por ser indisciplinada.

      Esbofeteia-a violentamente, em seu rosto angelical. Seu corpo fica adormecido dos acoites. Mas o aperto no coração doe muito mais do que uma ferida aberta.
    
Stergia quando ouve as pancadarias sai imediato para o piso superior do casarão para defender Rebeca. Repreende Camilo Borges da sua atitude covarde. Retruca:
—Não bata em Rebeca! Ela não é nada sua, ao menos lhe deve favores!Deveria refletir quem é o senhor!  Sua maldade é monstruosa! Ela é livre, é um ser humano digno de respeito!Breve  irá se arrepender do que está fazendo!
— Sai da frente! Já lhe falei que não opine nas minhas decisões. Você é apenas a cozinheira deste casarão!
— Não sairei! O senhor não irá torturá-la mais. Trate Rebeca da melhor forma possível, e digo mais, me respeite também.
Camilo Borges fica furioso com ameaça de Stergia em revelar assuntos do seu passado. Sua ira se torna visível. Se não fosse lhe comprometer já teria mandado-a para o além. Ele pensa: “Darei um jeito nessa negrita abusada. Ela poderá estragar meus planos. Além disso, em poucos dias ninguém sentirá sua falta”. Ele grita com fúria.
Rebeca recua como animal fugitivo em meio à discussão. Camilo Borges arregala os olhos e ameaça Stergia. Diz:
—Sai  daqui  sua negra, tente se comportar, e vá logo para cozinha!A Rebeca merece ser castigada.
— Não, bata mais nela! Pois, não será perdoado desta vez. Senão esqueço que sou a cozinheira dessa casa, posso chegar aonde o senhor não gostaria! Afinal, o que me segura neste casarão é apenas Rebeca! Não poderei deixá-la sozinha aos olhos de um monstro como você!

Stergia, o afronta porque conhece bem a astucia de Camilo Borges. Por muitas vezes ela tenta falar com Rebeca algo que mudaria seus pensamentos. Mas, a via tão frágil, que perdia a coragem. Vem por muitas vezes, no coração de Stergia, denunciar as autoridades, sob o comportamento agressivo de Camilo Borges.Mas ali em Vagem Doce, só prevalecia os coronéis  de  dinheiro, por isso poderia ela, e  Rebeca  ficarem sem a vida.

Naquele instante Stergia vai até o quarto de Rebeca que fica no térreo do casarão. Bate discretamente a porta. Ao vê-la soluçando, isso lhe traz mais tristeza. Stergia sempre lhe tratou com dengo como  mãe  e tenta animá-la. Chama-a de carneirinha por causa dos seus cabelos cacheados.
— Minha carneirinha, você não é mais bebê, muito breve verei  tomar decisões fortes, para se defender desse malvado. Terá muitas razões, daí então, desejo estar presente  para vê-lo desmascarado.
— Por favor, o que você quer me dizer? Diga-me logo, pois tenho sido um instrumento de ódio para o senhor Camilo Borges. Como poderei desmascará-lo se ele é tão superior a todos nós?
— Não o chame de senhor este homem tampouco ele é  superior. É  qualquer coisa, menos isso. Não merece que o chame assim tão respeitosamente. Não me conformo vê-la judiada. Você foi à menina mais linda que nasceu nessas terras.
—Então, você sabe Stergia, quem são meus pais verdadeiros? Por que nega me deixando sofrer esse tempo todo? Levei a minha vida pensando que os Borges fossem meus pais.
Pelo um instante elas comovidas se abraçam e choram pela mesma causa. Stergia sabe que não é à hora de sufocar os sentimentos de sua carneirinha, que ainda é tão criança, mas já tem muitos problemas para resolver.
—Rebeca tudo tem um tempo. Mas até não chegar esse tempo, juro que não deixarei esse crápula judiar de você. A não ser que ele...
— O que?
— Nada. Eu conheço muito bem a astúcia perversa de Camilo Borges. Ele será capaz de cometer atos de crueldades tirando vidas de quem lhe afronta. Ele é um homem doente pelo poder.
Stergia se apressa a sair dali. Não quer que Rebeca faça mais perguntas, pois não seria capaz de omitir por muito tempo.
—Você quer dizer que seu Camilo Borges pode nos tirar a vida?
Stergia contorna o assunto. Retruca:
— Não nada disso. Vamos sair daqui antes que a patroa nos encontre conversando, porque ela é uma hiena. Devora a carne enquanto sorrir.
Júlio e sua esposa Berenice se preocupam a cada instante com Rebeca. Dentro dos seus corações existe uma lacuna em branco porque nada podem fazer para livrá-la de Camilo Borges.  
Na manhã seguinte. Ainda não são 05h00h da manhã, mas Julio costuma sair cedinho para o curral tirar leite das vacas. Passa pelo casarão, logo avista Rebeca varrendo as folhagens no terreiro. Isso o incomoda.


— Bom dia Rebeca. É tão cedo que as aves  não saíram do poleiro. Por que não entra, e espera o dia clarear?
     A voz entrecortada de Rebeca; revela o vazio e desprezo, que é tratada. O medo a sufoca. Retruca:
—  Sinhá Berlinda  ordenou para eu levantar às cinco horas da manhã, preciso deixar tudo arrumado antes que ela acorde.
Estou estarrecido com essa situação. Já não tenho palavras  para lhe confortar. Mas nunca irei aceitar esta condição humilhante que você vive.  Eu conheço bem a falta de reputação dos patrões. Causa-me tristeza relembrar que testemunhei um dia de fúria de Camilo Borges contra você. Eu a defendi das suas mãos terríveis. Quando a vi chorando sem pronunciar sequer uma palavra, eu fiquei com o coração abalado. Estou  sempre atento,ao virar  as costas para ele, porque não sei quando ele pode me escoicear.
   A fisionomia de Rebeca não se entristece. Parece que o nascer do dia deixa-a mais feliz. Comenta:
— Se não fossem vocês e a Stergia ao meu lado, não sei o que seria de mim. Só uma coisa não eu compreendo. Stergia me disse que um dia iria me contar uma história muito séria e triste. Mas todas às vezes ela empalidece e não me conta nada. Não sei do que se trata.
 As palavras estão para saírem da boca de Júlio, porém ele pigarra disfarçadamente.
— Eu entendo. A Stergia queria contar alguma coisa da sua infância. Talvez  quisesse lhe  disser que você era como uma filha para ela. E colocou-lhe o apelido de carneirinha porque lhe preza muito.
— Não, seu Júlio. Eu acho que ela queria contar sobre a sua vida. Pois, ela era neta de escravo, e ouvia seu avô contar muitas histórias tristes de maltrato que os patrões faziam com os escravos. Da mesma forma que seu Camilo Borges faz comigo.
— Não pense assim, querida. Nós não queremos vê-la triste. Um dia por essa luz que lhe ilumina, você terá uma resposta.
— Eu terei uma resposta, mas de quem?
— O tempo nosso, é diferente do tempo de Deus. Então, aguarde que  a espera não é em vão.
Aos poucos Rebeca contorna o assunto. Veio-lhe a mente um sentimento de saudade de Violetta.

— Minha amiga Violetta tem tanta altivez, e um coração bondoso. Quando ela está aqui na fazenda, Lírio Venâncio se torna hipócrita finge ter um espírito cristão. Evita fazer bisbilhotice contra mim.
Júlio não suporta humilharem Rebeca. Diz:
— Se eu souber que esse riquinho lhe afronta, serei capaz de dar-lhe um bom corretivo. Não quero ninguém debochando de sua humildade. Rebeca, já que é assim; cuidado pelo caminho, onde esse indivíduo passa. Tenho observado que nesses últimos dias, chegaram muitas  pessoas  estranhas em Vagem Doce. Nós gostaríamos que você viesse morar conosco. Mas Camilo Borges nos impede dessa atitude.

— Ah, se eu fosse livre, iria conviver com vocês. Numa casa tão simples, mas cheia de amor. Eu e Violetta voltaríamos a ser como duas irmãs.
    Quando Júlio chega a casa, desabafa com Berenice. Ele se maldiz inúmeras vezes contra Camilo Borges.
— Homem miserável! É tão rico e mendiga alguns grãos de café, que caem no chão. Obriga a pobre menina colhê-los dentre as folhas úmidas e fétidas. A Stergia nem sempre toma conhecimentos do que passa com ela.
Berenice lança-lhe um olhar como quisesse decidir a condição de Rebeca. Mas entende que há um grande empecilho.
— O dia que Stergia decidir falar a verdade, nós talvez fiquemos pasmados e arrependidos de não ter ajudado mais essa garota.(...) Segue em breve.
     
         
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